A polêmica em torno da hipnose - Saúde Bem Explicada

Saúde Bem Explicada20 de março de 20185min974
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Há cerca de um mês houve a maior polêmica sobre hipnose. A técnica, aplicada por uma advogada em uma personagem que tinha sido abusada sexualmente pelo padrasto na novela “O outro lado do paraíso”, escrita por Walcyr Carrasco, passou a ser questionada. Quem era o profissional habilitado a aplicar  a hipnose?

 

Fiquei feliz quando a psicóloga Glauce Corrêa, doutora pela UFRJ, me enviou um artigo sobre o tema. Acho que o texto esclarece como a técnica deve ser aplicada. Boa leitura!

 

O valor da hipnose

 

A hipnose virou assunto fácil depois da abordagem da prática na novela. Junto com isso, surgiu muita polêmica sobre a eficácia da hipnose e seu uso pelo profissional de coaching.  Entre as atribuições de um coaching está a de atuar nas travas emocionais de uma pessoa, usando técnicas práticas e não necessariamente analíticas, que é uma das técnicas da terapia cognitivo-comportamental. Costuma ser utilizado como  um planejamento estratégico, para alcançar objetivos futuros, sem utilizar o passado ou valer-se da hipnose regressiva.

 

Antigamente a hipnose estava associada aos shows de circo. Hoje, ela é reconhecida como técnica auxiliar da Psicologia que depende de treinamento profissional específico. No Brasil, o Conselho Federal de Odontologia foi o primeiro órgão representativo de uma categoria profissional a reconhecer a hipnose como ferramenta clínica, em 1993, seguido pelo Conselho Federal de Medicina (1999), Conselho Federal de Psicologia (2000) e Conselho Federal de Fisioterapia e Terapias Ocupacionais (2010). Como se vê, existe todo um conhecimento científico e que deve ser restringido a profissionais da área da saúde capacitados. A hipnose é técnica terapêutica exclusiva dos médicos, psicólogos, dentistas, fisioterapeutas e outros profissionais que realizam terapia natural. Porém, quando se trata de profissionais que não possuem formação na área da saúde e que estão dispostos a atuar como um hipnoterapeuta, é fundamental ser formado em um curso de capacitação técnica em Hipnose Clínica e ser inscrito na Associação Nacional dos Terapeutas. Justamente por abranger complicações e conter contraindicações, sua utilização por pessoas leigas configura-se como curandeirismo.

Os psicólogos, independentes de suas abordagens terapêuticas, utilizam a técnica como ferramenta de trabalho para vários transtornos mentais. Portanto, não se deve banalizar ou tratar de forma tão superficial um assunto intensamente sensível.

A terapia cognitiva comportamental faz uso da hipnoterapia como técnica de tratamento, visando abordar a raiz do problema e não apenas os sintomas. Ela acessa conteúdos cognitivos com mais rapidez, promovendo mudanças na forma como a pessoa pensa, sente e se comporta.

A novela também lida com um trauma do passado que leva a personagem a um sofrimento mental, emocional e existencial. O atendimento psicológico com profissionais da Psicologia, neste caso específico, é o mais indicado. Na vida real, o uso da hipnose como técnica profissional, mas não como o único recurso do tratamento, tem se mostrado muito adequado e eficaz.

A avaliação psicológica de adultos, vítimas de abuso sexual, é um desafio para os profissionais da área da Psicologia, devido à sua complexidade. O trauma deixa marcas profundas e a vítima tem sua vida afetada completamente. Romper o silêncio e narrar algum episódio que pode levar às lembranças requer tempo, apoio e conforto emocional. O acolhimento e o suporte dados às vítimas são fundamentais, mas estes requerem, sempre, capacitação profissional adequada.

 

Dra. Glauce Cerqueira Corrêa da Silva

Presidente da SBRAMO – Associação Brasileira Multiprofissional em Oncologia

Diretora da Comissão de Psicologia da ABRAMEDE – Associação Brasileira de Medicina de Emergência – Nacional e Regional RJ

Mestre e Doutora pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro